domingo, 23 de junho de 2013

Os médicos importados e o Ato Médico no Brasil

 
Ontem, quando falei sobre os últimos acontecimentos no Brasil não cheguei a tocar em certos assuntos específicos. Hoje, ao receber este e-mail, não resisti em publicá-lo, pois, senti a mesma indignação relatada por esta médica, ao escutar as palavras da presidente, quando em um discurso raso, apontou como solução mor para a melhoria do sistema de saúde brasileiro, a importação de médicos estrangeiros.
Em meu pouco tempo de estudante, não posso dizer que tenho grandes experiências atuando no SUS, mas tenho idade e brasilidade suficientes para saber que o problema da saúde não está na qualidade ou quantidade de médicos e sim na precariedade dos hospitais, equipamentos e serviços básicos.
Frequentemente auxilio pessoas, que não têm plano de saúde privado, em termos nutricionais e quando peço para ver os últimos exames laboratoriais, a resposta é a sempre a mesma: no SUS é preciso de mais de 2 meses numa fila de espera para fazer simples exames rotineiros de urina, fezes e sangue. O mais comum é que estas pessoas façam esse tipo de serviço em clínicas particulares. Agora imaginem ultrassonografias, tomografias, endoscopias e outros procedimentos avaliativos mais complexos!
Recentemente acompanhei o atendimento de uma oncologista em um grande hospital público em Salvador, pois este local onde trabalha não dispõe de nutricionista ambulatorial (somente na UTI), sendo, portanto, o auxílio de uma estudante de grande valia. Pude ver de perto a dificuldade que é para obter exames básicos, essenciais para diagnósticos e tratamentos. Observei também toda a burocracia que é para conseguir obter medicamentos e tratamentos e ficou claro para mim que a equipe de oncologia literalmente dá nó em pingo de éter para conseguir dar um bom atendimento apesar de tantas precariedades. Resumir o problema da saúde no Brasil à escassez de médicos é não querer ver o óbvio! Além de ser uma ofensa a tantos médicos, como o relato abaixo.
Já falei aqui sobre o Ato Médico e para mim não passa de mais uma manobra política, para encher os médicos de atribuições, justificando assim a entrada de médicos estrangeiros no Brasil. A politicagem sempre falando mais alto, já que como integrante do Foro de São Paulo, o PT pretende ajudar seus companheiros cubanos, mesmo que isso signifique desvalorizar o trabalho de profissionais essenciais no sistema de saúde como enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e outros. O compromisso político é sempre maior do que qualquer compromisso social. O segundo é apenas uma fachada para alcançar objetivos políticos muito bem traçados, onde o que importa é o crescimento de um partido, para que este se torne "dono" da nação. A estratégia funcionou em muitos países vizinhos, mas o Brasil, por ter uma democracia bem sedimentada e ser o país enorme que é, está tem resistido bravamente. É bem por aí, acredito na força de nossa sociedade civil e torço que essa onda de manifestações consiga desarmar todo esse esquemão político. Como diz o ditado: "de boa vontade, o inferno está cheio" e sinceramente, não tenho a menor confiança nessa pseudo benevolência petista, quando já se mostraram chefes de esquemas corruptos como o mensalão e os inúmeros escândalos que envolvem o partido. Na hora que são colocados em xeque a reação é sempre a mesma: Lula, nunca sabia de nada e Dilma, se coloca como vítima, como se não tivesse culpa alguma de todas essas queixas protestadas nos últimos dias. É muita cara de pau!! 
 
"O dia em que a Presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros. 
Por: Juliana Mynssen, médica brasileira

Há alguns meses eu fiz um plantão que chorei. Não contei à ninguém (é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, "do trauma", médica "chatinha", preceptora "bruxa", que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei. 
Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similiar aos que prendemos plantas (diga-se: samambaias). Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse "não é para mim, é para o meu pai, uma maca". Como eu faria. Como você. Como nós.
Pensei "meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu... Nãoooo..... Porque se chorar eu choro, se falar do seu pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui".E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.
Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista quando soube que era meu pai, disse "por que não me falou, levava no privado, Juliana!" Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.
Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor ele me pergunta: "e você confia?".
"Se confio para os meus pacientes tenho que confiar para mim."
Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz melhor. Aprendo, cresço, me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.
Nesses últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos e que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.
Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso.
Não tenho palavras para descrever o que penso da "Presidenta" Dilma. (Uma figura que se proclama "a presidenta" já não merece minha atenção).
Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.
A ouvi dizendo que escutou "o povo democrático brasileiro". Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. "Qualidade"... Ela disse.
E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil....
Para melhorar a qualidade....?
Sra "presidenta", eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.
Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.
O dia em que a Sra "presidenta" abrir uma ficha numa UPA, for internada num Hospital Estadual, pegar um remédio na fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos.
Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.
Somos quase 400mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, eu te atendo. Não demora, não. Não faltam médicos, mas não garanto que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.
Hoje, eu chorei de novo."

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