domingo, 14 de agosto de 2011

A Estrada

A viagem começou em um taxi que levou até a parada do Conexão Aeroporto (companhia de ônibus que leva até ao aeroporto), depois avião (com direito a escala em São Paulo). Em Buenos Aires e Mendoza tiveram percursos a pé, em taxi, metrô, ônibus leito, ônibus urbano, bicicleta... Agora começa a etapa automobilística. Carrinho alugado: Suzuki FUN (no Brasil conhecido como Chevrolet Celta). Meta: desbravar os arredores de Mendoza, região de Cuyo. Primeira parada: San Rafael.

Amanhecemos em Mendoza, nos últimos 10 minutos antes de encerrar o café da manhã e descemos para comer descabelados. Em uma hora estávamos prontos, ao sair para buscar o carro, constatamos ser o dia mais frio da viagem (até então!) e demos graças a Deus que já tínhamos percorrido a cidade praticamente toda nos últimos dias e que viajaríamos naquele dia, pois, com aquele frio não íamos ter vontade de sair do Hostel.

GPS ligado, mapa na mão e pé na estrada. Logo no início do percurso percebi uma chuva estranha que vinha na horizontal... Coisa de loura e tupininquim, logo depois percebi que não era chuva e sim mini floquinhos de neve. Seguimos o caminho, admirando a paisagem que aos poucos ia ficando cada vez mais coberta de branco e os floquinhos também cada vez maiores.

Tudo muito lindo, música na caixa, clicks... San Rafael fica a 233 km de Mendoza, a estrada era ótima, ampla, um tapete, motoristas educados... A neve só aumentava, mas estávamos dentro do carro com a calefação ligada, admirando a paisagem e tirando fotos. Foi então que a policia nos parou e percebemos que a partir dali, todos os carros estavam retornando.







Perguntaram qual era o destino e ao responder San Rafael, fomos informados que a estrada estava interditada por causa de uma nevasca e que teríamos que retornar. Simpaticamente falaram também que havia uma estrada alternativa para San Rafael. O detalhe é que já tínhamos percorrido 130 km (estávamos a apenas 100km do destino final) e tivemos que retornar os mesmos 130 km para pegar outra estrada de 280 km até San Rafael. Mas porque reclamar?? Pelo menos havia outra estrada...

E foi isso que aconteceu... Após 260 km percorridos estávamos novamente em Mendoza – ponto zero – prontos para pegar outro caminho para San Rafael. Neste momento vi um posto de gasolina e falei em abastecer, entretanto fui tachada de neurótica, afinal o tanque ainda estava na metade. Concordei que era exagero de minha parte e seguimos em frente.

O que não contávamos era que essa estrada alternativa era no meio do deserto. Literalmente, não havia um sinal de vida em nenhuma parte e raríssimos carros na estrada. Não tínhamos parado para almoçar para não perder tempo e nosso único abastecimento de comida no carro era um pacote de biscoitos integrais e outro de castanhas. Estávamos tranqüilos com o combustível, entretanto, pois havia uma cidade que no meio do caminho que era passagem obrigatória e deduzimos que onde havia cidade haveria de ter posto.





Ledo engano, a neve era tanta que não vimos nem a placa e muito menos qualquer indício de desvio na estrada que indicasse a entrada para a cidade Comandante Salas. O GPS até localizou-a e passamos por ela, entretanto não avistamos nem sinal da mesma. A essa altura a paisagem já estava completamente branca e a neve que momentos antes era linda passou a ser motivo de preocupação. Já tínhamos percebido que estávamos no meio do nada para lugar nenhum e começamos a ficar preocupados com a gasolina. E se a gente não conseguisse chegar?? Iamos morrer congelados dentro do carro sem ter a quem pedir socorro?? Na dúvida desliguei a calefação para economizar gasolina. Agora além de preocupados seguimos com frio, mas a música continuava rolando e eu cantava sem parar – afinal: “Quem canta os males espanta!”.

Quando terminasse essa estrada, dobraríamos em outra estrada de maior porte em direção ao destino final. Nossa esperança era que a essa altura aparecesse algum posto, pois, pelos cálculos tínhamos gasolina até lá. Dito e certo, ao chegar ao cruzamento havia um posto, mas estava fechado. Logo depois passamos por um posto policial que nos informou que em 12 km no caminho para San Rafael havia um posto de gasolina.Ufa! Estava aberto!! Mas como alegria de pobre dura pouco só tinha gás natural e nosso carro rodava com gasolina. Informaram que havia outro posto mais adiante... Seguimos e este também estava fechado...!! Após 539,7 km percorridos em estradas ermas, cinco postos fechados, um aberto sem gasolina, oito horas de condução, muita neve e barrigas vazias, conseguimos chegar “no cheiro” a San Rafael, onde abastecemos o carro!












A essa altura não sabíamos mais se sentíamos mais fome ou frio, estávamos sim aliviados que tínhamos chegado e como o sol estava se pondo às 19:30, tivemos a sorte de não pegar estrada no escuro. Saltei corajosamente do carro no posto de gasolina enquanto o carro era abastecido e comprei um pacotinho de biscoitos integrais para “enganar” a fome até chegar no hostel. Minha bota (que não era apropriada para a neve) encharcou nesse pequeno percurso e quando cheguei ao albergue fiquei descalça sem pensar duas vezes e subi para o quarto: calefação, calefação, calefação!!

O chuveiro era forte e bem quente, a ducha deu uma reenergizada, seguida de um cochilo e acordamos querendo comer as paredes!! Informamo-nos na recepção onde eram os restaurantes da cidade, ligamos o santo GPS e fomos matar quem estava nos matando. Quase todos os restaurantes da cidade estavam fechados por causa da nevasca, mas encontramos um aberto. Nem lembro o que comemos, lembro só que de entrada vieram uns pães caseiros bem quentinhos que o garçom deve ter se assustado com a velocidade que terminou e trouxe mais!! Um vinho tinto e nem parecia que horas antes a sensação era de fome e frio.

De barriga cheia, não havia melhor programação a não ser dormir no quarto bem quentinho... O que fazer numa cidade fantasma coberta de neve por dois dias??? Aguarde o próximo post...
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