terça-feira, 15 de setembro de 2009

Razão X Emoção

A discussão entre Fé X Religião do último texto que foi postado previamente no Blog da Liga da Virtude gerou uma pequena polêmica que levou o tema para outro tema: Razão x Emoção.


Acho que já deu para perceber pelo tom de meus textos que sou uma pessoa essencialmente guiada pela emoção. Obviamente que todo mundo precisa ter um lado racional, ele é o nosso alicerce, o que mantém nossas raízes fincadas no solo.

Mas o que seriam das arvores se apenas tivessem raízes? A beleza delas está justamente no exterior, no tronco, folhas e frutos... É isso que ocorre com a nossa emoção é o que nos torna belos, o que nos faz expandir, sonhar e sorrir.

Estas duas realidades provocam uma guerra interna de dois mundos opostos, como se um anjinho e um diabinho vivessem em um duelo eterno. O diabinho que ir para festa, curtir a vida, avisa que ela é passageira e que não há tempo a perder. O anjinho tem referencias de pessoas bem sucedidas, trabalhadoras, focadas... Fazer uma conciliação de idéias destes dois personagens é muitas vezes uma tarefa árdua.

Volto à idéia do equilíbrio. A diversão eterna não tem o menor sentido, o ser humano precisa criar referências na vida, seja através de uma pesquisa, da publicação de um livro, da educação de um filho ou da execução de um projeto. É o misto de emoção (sonho de realizar) com razão (força de vontade para não desistir nas etapas difíceis) que faz com que se concretizem as idéias. Um fator muito importante no processo é sempre permear as tarefas chatas cotidianas com outras prazerosas, assim uma completa a outra.

Por fim, acho que elas são complementares, agir de forma é 100% racional é sempre muito sofrido, pois para isso é preciso abrir mão dos maiores desejos humanos que vem do lado emocional. Por outro ângulo, quando nos deixamos guiar 100% pela emoção as vezes cometemos excessos que podem vir a ser muito perigosos e trazer conseqüências danosas. Portanto, eu fico em cima do muro nesta questão.

Fé x Religião


A leitura do texto sobre Fé x Razão no blog Liga da Virtude me fez querer discutir outra coisa: Fé x Religião. Em minha percepção são idéias distintas. As pessoas podem não seguir uma determinada religião, mas podem captar os ensinamentos que lhes pareçam mais interessantes em diversas religiões e estabelecer suas próprias doutrinas de viver baseadas no bem.

Infelizmente a religião não seguiu o seu propósito de união, vinda do verbo “religare” do latim. Os seres humanos deturparam a essência da religião quando perceberam nela uma ferramenta de força e poder, utilizando-a de formas negativas. Assim, foram criadas diversas religiões e o que deveria “re-ligar” as pessoas, fez surgir blocos de doutrinas e pensamentos segregados.

Não vou discorrer sobre religião, pois este não é o foco deste texto. O que venho defender aqui é a Fé. Esta é uma das palavras mais fortes e presentes na vida de quem busca a felicidade. Fé pode ser em qualquer coisa... Fé que você vai conseguir correr 42km, fé que vai concluir um trabalho com sucesso, fé que um membro da família vai se curar... A fé não é mais do que acreditar, com bastante força, de que algo que se deseje muito irá de fato ocorrer com sucesso.

Algumas pessoas atribuem a conquista de seus desejos de fé a Deus. Para mim Deus é uma ilustração da força de vontade humana... Quando se diz que a fé move montanhas, nada mais é do que a força do homem focada em algo com muito vigor e desejo.

Adoro ler sobre grandes aventuras humanas e vejo a fé presente nas conquistas de homens que se depararam em situações onde só existiam eles, a natureza (com toda sua força e adversidades), a vontade de sobreviver e superar obstáculos e ninguém para contar. Nesta hora estas pessoas são regidas pela FÉ DA SOBREVIVÊNCIA. Por causa dela, podem ficar dias sem comer e mesmo assim ter forças para superar obstáculos que a ciência não explica.

Poderia dar INÚMEROS exemplos de fé aqui, de experiências pessoais, com amigos e relatos e livros que li. Vou comentar apenas um que, para mim, é uma das estórias mais impressionantes de força humana e fé. Esta é a história de Shackleton. Foi a fé na vida que fez com que ele e sua tripulação completa sobrevivessem, apesar da escassez de comida, abrigos, referências e frio encontrados na Antártida no início do século passado. Recomendo esta leitura, é um exemplo de fé, determinação, coragem e liderança, além do enredo emocionante: A Incrível Viagem de Schackleton.

A fé na cura também é algo impressionante. É lindo ver pessoas reunidas em prol de ajudar a salvar a vida de alguém, seja através de doações, preces, conversas ou sorrisos. Esta energia dividida entre pessoas que amam alguém e desejam o seu bem é um ensinamento genuíno de amor e união através da fé. A fé une pessoas, independente de cor, raça, idade, classe social e religião – esta união vem da idéia comum, pensamentos positivos e ações em prol de ajudar o próximo. É uma pena que muitas pessoas só recorram à fé em momentos de desespero. É justamente nestes momentos, entretanto, que fica clara a idéia de que somos todos iguais e a união de forças é a melhor forma de vencer barreiras, principalmente na luta pela sobrevivência.

O que defendo não é a religião em si e sim a RELIGIOSIDADE, aquela voltada para o bem, que ama o próximo como a si mesmo.Conheço pessoas que vão à missa todos os domingos e, no entanto, adoram uma fofoca e não têm uma postura religiosa na vida. Conheço outras ATÉIAS que negam a existência de Deus e têm uma conduta exemplar de humanidade. Não existe um código que determine se ser religioso ou não faz as pessoas melhores ou piores. Acho que a bondade e o amor estão no coração de cada um. Cabe a cada pessoa expressar isso como sentir que é melhor. A religião pode servir apenas como ferramenta para uns... Cada um tem seu meio, não julgo nenhum.

Gilberto Gil: Andar com Fé





quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Desmistificando Exu

Quando se ouve falar em candomblé a figura de Exu para os leigos geralmente está ligada à idéia de algo demoníaco como uma entidade que deva ser execrada da humanidade. Hoje resolvi dar uma de advogada do “cara” por uma simples questão de empatia com o sujeito...

É dito que diferente dos demais orixás, Exu não tem uma data no calendário, que todos os dias são dele, mas sinceramente tenho sérias desconfianças de que seja ariano (talvez daí venha a minha identificação). Na minha cabeça é um destes questionamentos como se Deus é Brasileiro. Sua força é inegável, notada pelo simples fato ser representante dos 365 dias do ano.

Como não se identificar com Exu? É o orixá que está mais próximo da realidade humana e por tal motivo considerado o Orixá das Causas Materiais. Assim como ocorre no signo de Áries, seu elemento é fogo e suas características todas remetem a uma personalidade forte e intensa.

Então, se você antes o repudiava sem sequer conhecê-lo, sinto lhe dizer, mas Exu está ao seu lado o tempo todo e é melhor querê-lo por perto e como amigo, pois a vida sem ele seria muito vazia.

Exu está na personalidade de quem é crítico e original, em pessoas que não ligam muito para opiniões alheias... Ele é um bom vivant, adepto da lei do menor esforço, melhor amigo das horas de lazer, em suma: o melhor companheiro das baladas. Exu é Yang, é calor humano, quentura, verão, multidão, carnaval, estádio de futebol. Ele está presente no grito de GOL, no namoro, no desejo, na paixão, na gula, na gargalhada, no abraço apertado e nos prazeres mais intensos e instintivos da vida.

Como todo Yang tem seu Yin, com esta figura não podia ser diferente. Rei dos excessos: encontramos Exu também nos vícios, nas substâncias tóxicas, na bagunça, na raiva, na vingança, no ciúme e na preguiça. De fato, estas características não são nada positivas, mas discordo de quem quer resumir Exu a elas. Como força dos extremos, ele está presente no bem e no mal e cabe a cada um de nós saber extrair o melhor dele, afinal até mesmo o poder do livre arbítrio é guiado por Exu: símbolo da ligação entre o que há de mais obscuro e mais claro no ser humano.


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Santa Verena

Hoje é dia de Santa Verena por isso resolvi dedicar este texto à minha avó paterna, falecida ha 10 anos, deixando recordações que se perpetuarão para sempre em minha memória.

Anna Verena é um exemplo de alguém que beijava o padeiro constantemente e sem dúvidas uma das grandes referências femininas que tive na vida. Sempre tive uma forte identificação com ela e carrego com orgulho alguns de seus traços, seja na mania por sapatos, por adorar adereços exagerados, por não resistir a uma “muvuca”, pela facilidade em trocar o dia pela noite, pela vida social agitada, por detestar manteiga e ter aprendido a gostar de mamão na raça, por não gostar de me amolar ou simplesmente por ser uma loira morena no verão.

Nos quinze anos em que convivi com ela, nunca vi alterar a voz ou se queixar de alguma coisa. Tudo para ela era formidável - acho que me lembrarei dela pelo resto dos meus dias quando falar esta palavra. Com seu jeito doce e carinhoso de ser, viveu sua vida sem amolações (rainha dos panos quentes), distribuindo simpatia por onde passava. Querida, era o que simplesmente era. Desconheço uma pessoa que não a adorasse, mulher ingenuamente amável com todo mundo que cruzava seu caminho.

Acho que o mundo de minha avó devia ser cor-de-rosa, pois, para ela ninguém tinha defeitos. Um exemplo de mulher forte, que passou por sérias dificuldades na vida, sempre fazendo o jogo do contente de Polyana (mais uma lição que aprendi com ela) e com uma fé inabalável.

Lembro-me de que sempre que ia visitá-la encontrava-a descalça, vestida com uma túnica que ia até os pés, totalmente suja de tinta advinda de seus artesanatos. Quando de repente entrava em seu quarto para se arrumar para algum evento e reaparecia exuberante, cheia de cores, jóias, colares, pulseiras, com um brilho que gordura nenhuma jamais foi capaz de ofuscar. Verena era isso, simplicidade e sofisticação com simpatia constante.

É esta lembrança que guardo dela, de uma mulher alegre, bem humorada, cheia de vida, disposta, delicada, de extremo bom gosto, agradável, deslumbrante e humana. A saudade que sinto dela vem me acompanhando ao longo destes anos. Minha avó se foi cedo demais, antes mesmo de conhecer algum namorado meu ou de eu ter idade suficiente para ser sua companheira em eventos sociais (e vice-versa). A cada noite virada na faculdade, imaginava o quanto ela curtiria me ajudar nas maquetes e como algo que sempre detestei fazer teria sido divertido ao seu lado.

Prefiro não questionar as razões da vida, pois, mesmo tendo partido prematuramente viveu tempo suficiente para deixar um legado de alegria e exemplos de fé, bondade, humildade e amor a serem lembrados eternamente. Por tudo isso, sua memória estará sempre viva por onde passou e entre aqueles que a amavam.